Quando o body positive não inclui quem precisa de uma imagem positiva do próprio corpo.

Acredito que não possa mais me incluir ou considerar influenciadora do #bodypositive, nem sei se um dia fui. E talvez a maioria das mulheres que realmente precisem de um movimento que exalte positivamente seus corpos, estejam cada vez menos incluídas nesse movimento e nos discursos que vem dele.

A questão que sempre me incomodou sobre o body positive, é que tem um limite do que se pode fazer pelas pessoas fora dos padrões através dele. A foto do seu nude dizendo que se ama, pode ser uma conquista individual sua, talvez também ajude algumas pessoas que veem sua foto. Mas salvo raras exceções, o body positive tem servido apenas ao lucro e ao ego de pessoas que estão longe de pertencerem ao gueto das gordas, das negras e das pessoas com deficiências.

Body positive sucks

Por isso tudo, posso dizer sobre mim mesma e sobre a luta que travo todos os dias, que eu não sou uma divulgadora de body positive, eu luto pela liberdade do corpo gordo. Já não estou mais me importando tanto se eu ou você amamos nossos corpos individualmente. Estou mesmo preocupada e focada na discriminação enraizada e abuso que pessoas gordas encaram diariamente.

Body positive é legal, uma gracinha, mas não resolve o problema. Aliás, cada vez mais é apenas uma maquiagem muito da fajuta, que tenta camuflar o problema, e varrer para debaixo do tapete as pessoas que realmente estão à margem e precisam que o movimento as inclua.

Achar ou não corpos gordos bonitos é apenas a superfície dessa questão. O foco pra mim atualmente é o quanto a gordofobia mata e prejudica as pessoas. E não só pessoas gordas (que são mal atendidas por profissionais de saúde e deixam de dar diagnósticos corretos, justificando tudo com obesidade). A gordofobia é mortal para gente de todos os tamanhos, principalmente adolescentes e mulheres jovens, que desenvolvem todo tipo de distúrbios alimentares e dismorfia corporal. Tudo isso pelo medo de ficar gorda.

Gente gorda é menos contratada e menos remunerada. Essa discriminação contra gordos é generalizada, é cultural e social, e nada disso vai ser mudado por influencers (na sua maioria dentro dos padrões) nos ensinando a amar nossos corpos.

Aprender a amar nossos corpos numa sociedade capitalista, estética e superficial é tentar tapar o sol com a peneira. Nós precisamos de mudanças sócio-econômicas e politicas. Assim quem sabe as próximas gerações aprendam que não precisamos ser magros para termos direito a respeito e felicidade.

Recentemente participei de uma matéria de TV sobre o body positive lutando contra o body shamming, fui convidada por ser referência em produção de conteúdo de moda plus size e por consequência body positive. São espaços que a gente tem que ocupar, nós mulheres gordas, mesmo não sendo a pauta que nós queríamos realmente abordada na mídia.

Digo isso pois mesmo com todo o esforço que vejo várias mulheres gordas fazerem, mesmo com trabalhos lindos de amor próprio, luta contra gordofobia em todos os ambientes da sociedade, mesmo assim, sempre que puderem nos substituir por uma versão mais magra, mais loira e mais maquiada, vão fazê-lo.

Nessa matéria que participei, no final colocaram um vídeo caseiro de uma moça que está perfeitamente dentro dos padrões, mas que viu nesse filão oportunidade de autopromoção e lucro, falando sobre coisas que não tem propriedade, porque está em alta falar sobre.

Ela estava ali para validar o que eu mulher gorda disse, pois apenas a minha palavra não vale, alguém com uma aparência mais aprazível precisava confirmar minha fala e se estabelecer como autoridade no assunto.

E esse é só um exemplo e um dos motivos para que eu não me considere militante de body positive, pelo menos não mais. Pois a mudança que nós queremos nunca aconteceria só com amor próprio, e agora que o movimento tomou outro rumo, acredito que nem positivo pode mais ser parte so seu nome.

Diga o que achou do post

Helena Sá

More about Helena Sá

A Garota Rosa Choque, treinadora de unicórnios, adora colorir a pele e os cabelos. Humana do Jimmy, canceriana em sol e ascendente. Don’t cal me flor, amor, querida...

Leave a Reply