Bem blogueirinha ou como tudo que é de mulher é fútil

Blogueirinha de merda, personagem que zomba de blogueiras

Faz tempo que isso me incomoda, essa coisa de toda e qualquer leviandade, futilidade e baixeza praticada na internet ser associada a blogueiras.

Sou blogueira há quase 10 anos, do tempo que ser blogueira era ter blog, passei por todas as fases da internet desde então. Sou da época em que os algoritmos não te impediam de entregar conteúdo, sobrevivi ao engajamento orgânico zero e a declaração de morte dos blogs.

Já vi todo tipo de ridicularização de blogueirAs, sim existem homens blogueiros/creators/influenciadores, mas o trabalho deles é sempre levado a sério, mesmo que hoje em dia os principais propagadores de fake news sejam homens, quem está com o alvo na testa é a blogueirinha.

E isso ultrapassou o limite do absurdo nessa semana de carnaval quando o presidente do nosso país resolveu postar um vídeo pornográfico em sua conta oficial e verificada no twitter. Não vou aqui entrar no mérito da presepada do presidente, até porque o assunto a essa altura já foi analisado e criticado por indivíduos e jornais do mundo inteiro.

A produtora de conteúdo @janaviscardi incomodada com a comparação

O que eu quero destacar aqui é o que me atinge diretamente como mulher e sim, como blogueira. Por de trás desse slut shaming com blogueiras tem muita coisa pesando. E eu faço questão de listar aqui.

As pessoas odeiam mulheres sendo bem sucedidas, tudo que é designado como “universo feminino” é considerado futilidade, coisa rasa, bobeira, frescura. Ridicularizar a forma com que mulheres que produzem conteúdo online falam, se fotografam e escrevem é cool, todo mundo faz isso, homem hetero, gay, mulher… todo mundo debocha.

E pode num primeiro momento parecer muito classe média sofre, ou até mesmo Barbie fascista questionar isso em meio a tantas merdas que a gente vem passando como sociedade. Mas eu falo como mulher gorda, acima da casa dos 30, que sempre esteve à margem dentro desse mercado.

Conversando com a Pati, constatamos que até blogueiras bem sucedidas costumam se auto depreciar com esses jargões de deboche, ou seja, a pessoa tá lá super no top da carreira e tá se auto sabotando, não acredita no que faz porque a gente aprendeu que o que criamos é fútil, frugal, banal, irrelevante…

Inclusive já caí na burrada de reproduzir esse tipo de depreciação da mulher que cria conteúdo. Não o faço mais e entendo o quanto não importa as merdas que homens façam, temos nosso nome e nossa persona profissional arrastada pro campo de ridículo e do escatológico.

Tudo isso tem suas raízes fincadas na misoginia, é batido sempre jogar a carta do machismo, mas é o que é, não dá pra evitar. Mulheres debocham de blogueiras porque fomos treinadas para rivalizar, e ver uma mulher ser bem sucedida, influente, sempre recebendo jabás, vivenciando um mundo que parece perfeito, intensifica essa disputa.

Com isso não quero isentar nem relativizar a má influencia que muitas blogueiras tem entre mulheres, principalmente mulheres jovens. O culto ao corpo perfeito, ao consumismo, ao lifestyle fake e cinematográfico. Em tudo isso sou sempre uma das primeiras a criticar, questionar…

Porém chega o momento que temos que fazer um exame crítico e consciente dos nossos atos. Até onde esse ódio as blogueiras que você tem aí guardado no peito, e que libera – até mesmo comparando a bestialidade do Bozo com toda uma categoria de profissionais mulheres – responda, até que ponto isso é consequência das más posturas das blogueiras, e até que ponto é a sua misoginia gritando, uma que você nem fazia ideia que cultivava?

Presta atenção quando for postar aquela sua foto “bem blogueirinha”, que essa legenda é você justificando uma foto considerada fútil assim como muita gente justifica até um sorvete que toma. É você se sentindo culpado por querer se inspirar na blogueira famosa que você tanto adora seguir, mas que tem vergonha de admitir então tem que ridicularizar primeiro.

E a ironia disso tudo é que TODO MUNDO QUER SER BLOGUEIRINHA, ou pelo menos o que se idealiza de uma. Conheço toneladas de gente que tentou ser, não conseguiu nem começar ou desistiu. Será que Freud explica? Acho que não, mas Beauvoir sim.

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Helena Sá

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A Garota Rosa Choque, treinadora de unicórnios, adora colorir a pele e os cabelos. Humana do Jimmy, canceriana em sol e ascendente. Don’t cal me flor, amor, querida...

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