Sessão Plus Size não funciona pra mim

Sessão Plus Size não funciona pra mim

A sessão Plus Size não funciona pra mim, isso pode parecer falta do que reclamar, mas não é.

Quanto mais a gente conquista, mais a gente quer, parece até que não nos contentamos com nada! Isso é o que muita gente vai pensar ao ler este post. Mas na verdade, quanto mais dão soluções paliativas pra nos fazer contentar com muito menos que igualdade, menos satisfeita fica a pessoa que não é contemplada por estar fora dos padrões.

Muita gente pode achar também que há outras questões mais urgentes para se solucionar, quando se fala em direitos das pessoas gordas. Mas aqui eu falo primordialmente de moda, e é o segmento em que tenho mais propriedade em falar, pois é na moda que eu sinto mais pessoalmente. Além disso, como sempre repito aqui, moda é dignidade e mobilidade, quem acredita que moda é assunto menor, que é futilidade, está deslocado do que é viver em sociedade.

Sempre que uma loja que já vende moda tradcional abre uma sessão Plus Size, fico curiosa e feliz, quero mesmo saber o que tem por lá. Mas é triste ao mesmo tempo, porque o que mulheres que vestem acima do 48 realmente desejam, é a ampliação das grades.

E o que isso significa na prática? Que a gente quer a mesma brusinha, vestido, calça, shorts e cropped que estão na sessão tradicional, no nosso tamanho também. A gente quer a sessão jovem e a sessão básica ou qualquer outra sessão com numerações pra todas nós.

Parece um sonho, parece utópico, mas não é. Outro dia a Renner inaugurou lojas Ashua, que nada mais é uma sessão Plus Size em loja separada. E a intenção é abrir mais dessas lojas pelo Brasil. Você acredita que essa estratégia custaria menos do que apenas ampliar as grades da Renner? Sinceramente eu não sei que tipo de pesquisa de mercado foi feita para decidir por uma loja segregada à ampliar grades, só posso falar por mim dessa vez, e o que eu quero é frequentar as mesmas lojas que todos vão.

Já conversei aqui sobre minha teoria de que tanto as marcas não querem os gordos as vestindo, quanto os consumidores padrão não querem ver nas ruas gordos vestindo as mesmas roupas que eles. E pra mim, sessão Plus Size e loja separada, são também uma forma de não incomodar o cliente habitual, sendo que a loja apartada ainda nos afasta fisicamente das pessoas padrão, a nossa estética passa a não incomodar nem mesmo no uso dos mesmos provadores.

E isso pra mim nada mais é do que uma forma de nos afastar mais ainda da normalidade, precisamos de lojas específicas, de nichos e segmentos, nossa moda tem que ser diferenciada, a aplicação das tendências além de atrasadas, tem que ser implementadas de forma a não se assemelhar tanto com a moda tradicional. Tudo isso pra mim só expõe o medo das pessoas de serem identificadas com gordos e das marcas de serem identificadas como produtores de moda para gordos.

E essa tendência do mercado em nos segregar nos mostra ainda mais: que somos um mercado forte, que justifica fortes investimentos, porém bancar uma ampliação de grades pode significar perder seu público habitual para lojas que vendam exclusivamente tamanhos menores.

Falei todas essas minhas percepções sobre como a moda plus size tem evoluído, para depois vir demonstrar mais pessoalmente como pra mim e talvez para muitas outras mulheres gordas, a sessão Plus Size e a segregação não funcionam.

Nós crescemos vendo a moda nos ser negada, passei minha vida rodando as fast fashion tentando entrar num GG da última tendência. O fast fashion é o que mais se aproxima de democracia em moda, pois a gente circula sem precisar socializar com atendentes gordofóbicas, por isso sempre foi meu sonho poder comprar todas as minhas roupas nessas lojas sem ser importunada, assediada e humilhada por ninguém. Daí quando começamos a ter espaços nessas lojas, são sessões pequenas, com moda completamente diferente da coleção tradicional. E mesmo que fossem peças parecidas, por que não iguais?

Sempre que entro em uma forever21, Renner, Leader e afins, me identifico com as tendências nas araras de moda padrão, jovem, básica, formal… quero usar o que está lá. As poucas peças das sessões plus size raramente fazem brilhar meus olhos.

Esse post pode não mudar nada, vocês podem inclusive dizer que não concordam, que gostam de moda a parte para nós. Pode aparecer gente aqui dizendo que estou equivocada. Mas não muda a minha percepção e também não muda que essas sessões não funcionam para o meu consumo de moda.

E é por isso que muitas vezes a melhor opção para mim e outras mulheres gordas são as feiras de moda plus size e as lojas que só vendem para nós.

Pode parecer que são melhores porque são totalmente dedicadas a moda plus size, mas a verdade é que elas são melhores porque nelas, TODAS as peças tem numeração para nós. As vezes nós mesmas podemos nos confundir com isso, mas essa é a diferença, entrar na loja e não ter lá apenas um número limitado de peças segregadas por tamanho, estilo e até mesmo qualidade.

Não tenho esperança de mudança desse quadro à curto prazo, vou continuar mostrando e falando de moda em todos esses ambientes, mesmo que não adequados e perfeitos para mim, porque sou humana e não quero me isolar de tudo. Porém, independente de parcerias, contratos ou ser mal vista dentro do segmento, não vou deixar de falar abertamente sobre todos esses pontos que impedem um consumidor de grande potencial de ter o que realmente quer.

E se não ficou desenhado nesse texto enorme, os pontos são o preconceito e a condescendência.

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Helena Sá

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A Garota Rosa Choque, treinadora de unicórnios, adora colorir a pele e os cabelos. Humana do Jimmy, canceriana em sol e ascendente. Don’t cal me flor, amor, querida...

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