resenha


12/01/17
[Resenha] Wicked – Gregory Maguire

wicked livro

“As pessoas que se dizem más normalmente não são piores do que o resto de nós. É com as pessoas que dizem que são boas ou melhores do que o resto de nós que devemos nos preocupar.”           

Wicked me fez odiar o O Mágico de Oz, tanto o mágico em si quanto a população inteira a Terra de Oz. Então se você não quer acabar com sua linda visão da história de O Mágico de Oz, não leia Wicked.

É bom dizer que o livro de 95 não é uma história oficial, não foi o próprio Lyman Frank Baum quem escreveu. O autor da vez, Gregory Maguire, se apropriou da história original para dar uma visão mais ampliada sobre as vilãs de Oz, talvez porque ele ache que tudo é de uma forma por um motivo. E essa é justamente a essência do livro.

Wicked não tem nada de fofo e passa longe do clima “princesa Disney” da musical adaptação cinematográfica de O Mágico de Oz. O livro conta a história da famosa Bruxa Má do Oeste, Elfaba, começando desde o seu nascimento, passando pela adolescência – quando conheceu a futura inimiga Glinda e consolidou com ela certa amizade  –  e todo o caminho que ela  trilhou para, finalmente, chegar a ser odiada por todos.

Mas então o que será que fez Elfaba, uma moça boazinha, se transformar em uma bruxa tão temerosa? É aí que Wicked dá um tapa na sua cara. Maguire conseguiu mixar política, preconceito racial e magia em um único livro e que, por coincidência ou não, faz muito mais sentido quando se vive em um período histórico tão horrendo como o que estamos vivendo.

Logo que nasce, Elfaba já é rejeitada por seus pais por possuir uma cor de pele diferente. Pois é, se você não sabe, em OZ não há muitas criaturas verdes. Talvez justamente por crescer em volta de tanto julgamento e não só aparentar diferente, mas também pensar, ela cria uma personalidade forte e independente. Quando entra na Universidade de Giz, conhece a futura “bruxa do bem” Galinda – ou Glinda – e, mesmo depois de uma não ir muito com a cara da outra, rapidamente viram amigas.

Deixando as eventuais desavenças das duas amigas de lado e suas paquerinhas adolescentes, o narrador sempre dá um jeito de contar a situação política social que ocorre em OZ naquele momento: resumidamente os povos de Oz estão em conflito e o Mágico encontra uma solução para unir novamente a população: o ódio em comum. Esse ódio é direcionado para os Animais, que são animais, porém pensantes.

Seu discurso consiste em dizer que esses seres são apenas animais e, como tais, não devem conviver com todo mundo, mas sim viver em fazendas. São seres inferiores. Te lembra um certo discurso de um certo ditador? Pois é, ponto para Gregory Maguire!

Elfaba, sendo a girl power que pensa por si, logo  vê que isso está errado e começa a agir ao lado da resistência. Ou seja, entra para os “esquerdalhas” que lutam a favor dessa minoria (os Animais). Não é preciso dizer muito mais, mas já dá para imaginar como a personagem e sua irmã acabam virando as vilãs de Oz.

Não creio que Lyman F. Baum tenha criado as bruxas más pensando que eram, na verdade, mulheres fortes más compreendidas e com “má fama”.  Acho que elas nasceram em sua  mente simplesmente como vilãs. É por isso que Wicked estragou Oz para mim. Pois faz muito mais sentido uma mulher antipática, verde, que estudou magia e é contra o governo, se tornar uma vilã para a população (simplesmente porque essa imagem foi construída pela sociedade de Oz), do que ser uma Bruxa Má que mora no Oeste que é má apenas e exclusivamente por ser má. Compro muito mais a versão de Maguire do que a original. Afinal, na pior das hipóteses (tendo Elfaba sido uma militante de esquerda que lutou contra as absurdas leis impostas pelo Mágico ou não), ela era só uma bruxa que queria de volta os sapatos da irmã morta.

Recomendo Wicked se você não tiver uma relação íntima com O Mágico de Oz, afinal, pode quebrar o encanto e as chances de não gostar da descrição diferente e moderna que o autor faz de Oz são muito maiores. De resto, a escrita é muito bem feita, a tradução da ed. Leya ficou ótima e se faz um livro muito leve de ler e fácil de se  imaginar dentro. Vale a pena para quem gosta de fantasia e, principalmente, de conhecer o outro lado da moeda.

Postado por Carina Silva

Veja também

12/01/17
[Resenha] Wicked – Gregory Maguire

wicked livro

“As pessoas que se dizem más normalmente não são piores do que o resto de nós. É com as pessoas que dizem que são boas ou melhores do que o resto de nós que devemos nos preocupar.”           

Wicked me fez odiar o O Mágico de Oz, tanto o mágico em si quanto a população inteira a Terra de Oz. Então se você não quer acabar com sua linda visão da história de O Mágico de Oz, não leia Wicked.

É bom dizer que o livro de 95 não é uma história oficial, não foi o próprio Lyman Frank Baum quem escreveu. O autor da vez, Gregory Maguire, se apropriou da história original para dar uma visão mais ampliada sobre as vilãs de Oz, talvez porque ele ache que tudo é de uma forma por um motivo. E essa é justamente a essência do livro.

Wicked não tem nada de fofo e passa longe do clima “princesa Disney” da musical adaptação cinematográfica de O Mágico de Oz. O livro conta a história da famosa Bruxa Má do Oeste, Elfaba, começando desde o seu nascimento, passando pela adolescência – quando conheceu a futura inimiga Glinda e consolidou com ela certa amizade  –  e todo o caminho que ela  trilhou para, finalmente, chegar a ser odiada por todos.

Mas então o que será que fez Elfaba, uma moça boazinha, se transformar em uma bruxa tão temerosa? É aí que Wicked dá um tapa na sua cara. Maguire conseguiu mixar política, preconceito racial e magia em um único livro e que, por coincidência ou não, faz muito mais sentido quando se vive em um período histórico tão horrendo como o que estamos vivendo.

Logo que nasce, Elfaba já é rejeitada por seus pais por possuir uma cor de pele diferente. Pois é, se você não sabe, em OZ não há muitas criaturas verdes. Talvez justamente por crescer em volta de tanto julgamento e não só aparentar diferente, mas também pensar, ela cria uma personalidade forte e independente. Quando entra na Universidade de Giz, conhece a futura “bruxa do bem” Galinda – ou Glinda – e, mesmo depois de uma não ir muito com a cara da outra, rapidamente viram amigas.

Deixando as eventuais desavenças das duas amigas de lado e suas paquerinhas adolescentes, o narrador sempre dá um jeito de contar a situação política social que ocorre em OZ naquele momento: resumidamente os povos de Oz estão em conflito e o Mágico encontra uma solução para unir novamente a população: o ódio em comum. Esse ódio é direcionado para os Animais, que são animais, porém pensantes.

Seu discurso consiste em dizer que esses seres são apenas animais e, como tais, não devem conviver com todo mundo, mas sim viver em fazendas. São seres inferiores. Te lembra um certo discurso de um certo ditador? Pois é, ponto para Gregory Maguire!

Elfaba, sendo a girl power que pensa por si, logo  vê que isso está errado e começa a agir ao lado da resistência. Ou seja, entra para os “esquerdalhas” que lutam a favor dessa minoria (os Animais). Não é preciso dizer muito mais, mas já dá para imaginar como a personagem e sua irmã acabam virando as vilãs de Oz.

Não creio que Lyman F. Baum tenha criado as bruxas más pensando que eram, na verdade, mulheres fortes más compreendidas e com “má fama”.  Acho que elas nasceram em sua  mente simplesmente como vilãs. É por isso que Wicked estragou Oz para mim. Pois faz muito mais sentido uma mulher antipática, verde, que estudou magia e é contra o governo, se tornar uma vilã para a população (simplesmente porque essa imagem foi construída pela sociedade de Oz), do que ser uma Bruxa Má que mora no Oeste que é má apenas e exclusivamente por ser má. Compro muito mais a versão de Maguire do que a original. Afinal, na pior das hipóteses (tendo Elfaba sido uma militante de esquerda que lutou contra as absurdas leis impostas pelo Mágico ou não), ela era só uma bruxa que queria de volta os sapatos da irmã morta.

Recomendo Wicked se você não tiver uma relação íntima com O Mágico de Oz, afinal, pode quebrar o encanto e as chances de não gostar da descrição diferente e moderna que o autor faz de Oz são muito maiores. De resto, a escrita é muito bem feita, a tradução da ed. Leya ficou ótima e se faz um livro muito leve de ler e fácil de se  imaginar dentro. Vale a pena para quem gosta de fantasia e, principalmente, de conhecer o outro lado da moeda.

Postado por Carina Silva

Veja também

21/10/16
The Get Down: único seriado possível em 2016

the get down

Ano passado quando assisti o teaser de The Get Down eu fiquei louca. UM SERIADO SOBRE DISCO MUSIC? BERRO, GRITO, TIRO, BOMBA. Fui nascida e criada escutando Earth, Fire and Wind, Aretha Franklin, Diana Ross (obrigada, pai!), sou apaixonada por todo o contexto que envolve a cultura disco: valorização da estética e musicalidade negra.

Fiquei mais ansiosa depois de saber que seria o diretor Braz Luhrmann contaria aquela história. Quando todo mundo achou que ninguém poderia contar a tragédia de Romeu e Julieta, Braz inovou ambientando a história de forma contemporânea, com muitas pistolas e perseguições de carros, mas mantendo a atmosfera apaixonada e política da peça. Quando hollywood achou que filmes musicais estavam ultrapassados e cansativos, Braz nos brindou com Moulin Rouge.

Então veio The Get Down e a minha surpresa: não é um seriado sobre disco music, vai além disso.

Lado A, Lado B

Os episódios são sempre introduzidos em forma de rap por Mr. Books que conta a sua história, dos amigos e amores, na Nova Iorque de 1977. Parece confuso no começo e nos primeiros você fica “que rap é esse?”, “quem é esse cara?”, “é anos 90 ou 70?”, “cadê o disco?”. Mas as personagens e suas histórias são apresentadas e tudo vai se encaixando como numa grande engrenagem. Ezequiel Figueiro (Justice Smith) é um dos adolescentes que conduz a história, ele perdeu os pais e vive com a tia materna no Bronx e, como todo adolescente, tem seus sonhos e aptidões (escrita e leitura), mas se sente inseguro e precisa da ajuda dos amigos para se tornar mais confiante. Contrapondo a história de Zeke, temos a determinada Mylene Cruz (Herizen Guardiola), uma garota criada por pais conservadores que sonha em ser a próxima Donna Summer. O ponto em comum desses dois, além de serem jovens negros/latino, é a música. Mylene sonha com Manhattan e uma vida melhor que lhe espera além das ruínas em chamas do Bronx, já Zeke através da sua rima e versos, começa a entender seu papel e importância na comunidade, tudo isso através da música.

via GIPHY

Mylene Cruz divando no coral da igreja

Caldeirão musical e cultura pop

Assim como a história é conduzia de forma não linear, aquele vai e vem entre passado e presente, a trilha sonora é mixada da mesma forma, amarrando perfeitamente ritmo da série. São versos em forma de rap misturando-se com vocal gospel e batida disco. A música latina com seu pandeiro meia lua e violões, misturando uns violinos nervosos. Uma base de piano com soul e vocais gospel. é a disco music em seu auge emprestando seus metais em corneta, trombones e tubas para a mixagem de underground dos DJ do hip-hop. é a galera de boca de sino, lame e óculos escuros de sandália plataforma curtindo a turma dançando aquilo que hoje chamamos de break.

Nada é delimitado e tudo é misturado, fazendo esse caldeirão cultural étnico se tornar muito verossímil. As referencias pop estão por todos os lugares: HQ’s da Marvel, Star Wars, Bruce Lee e os filmes de artes marciais.

E somado a isso temos como pano de fundo a cidade de Nova Iorque, que também desempenha seu papel como personagem. A decadência e alto índice de desemprego, corrida eleitoral para a prefeitura com candidatos brancos que precisam do voto da periferia negra e latina para vencer, ao mesmo tempo esses candidatos querem erradicar e promover uma higienização dos grafites e da cultura desses guetos.

The Get Down mostra como a indústria fonográfica é cruel e seu sexíssimo, tem feminismo e aquela sororidade praticada no dia a dia em cenas lindas, que a gente se emociona e quer sair abraçando as personagens. Tem sangue, muito sangue! Não existe aquela separação básica de bem vs. mal, em um episódio eu amava Shaolin Fantastic e no outro eu queria que ele explodisse.

Aliás, os personagens secundários roubam a cena mesmo. Shaolin Fantastic (Shameike Moore) é um deles, o grafiteiro metido a Bruce Lee que introduz Zeke ao mundo de The Get Down. Outro personagem interessante é Dizziee (Jaden Smith). Ele é todo artístico e tranquilo (a loca do signo que mora em mim diz que ele é de peixes), se mistura bem entre todas as vertentes de grafiteiros e por conhecer quase todo mundo, acaba em uma festa moderninha no SoHo e protagonizando umas das cenas MAIS LINDAS DO SERIADO.

A série estreou a sua primeira parte em agosto deste ano na Netflix, com um orçamento de 120 milhões (!!!), trilha sonora (disponível no Spotify) e edição impecável, a fotografia e paleta de cores retro com muito amarelo mostarda/marrom/vermelho/azul pastel é colírio para os olhos, os cabelos black power e as maquiagens com muito brilho e sombra azul, uma história coerente e cativante de adolescente descobrindo os seus talentos, tentando conquistar seu espaço.

via GIPHY

The Get Down Brothers

This aint no fairy tale.

“Isso não é um conto de fadas”, Zeke diz ao longo da trama. Será este o motivo das pessoas não falarem sobre The Get Down? Eu tenho um palpite… O grande público está desacostumadas com enredos de protagonistas negros e latinos. Stranger Things estreou um mês antes e ainda vejo as pessoas replicando memes e falando sobre. Até agora eu vi pouquíssimas pessoas assistindo The Get Down, o que é uma pena! E o único seriado possível em 2016. E uma aula de história e uma imersão e valorização da cultura negra e hip hop. Antes de ver a série, eu achava que não gostava e não entendia muito bem o hip hop. Hoje eu percebo em como essa vertente foi sendo a apropriada por outros movimentos musicais e pela moda. ao longo dos anos.

The Get Down faz esse resgate das raízes do hip hop mostrando como, onde e o porquê do seu nascimento e de como a música é um instrumento importante na vida daqueles adolescentes, fazendo expressar seus sentimentos, discurso político e de se afirmar como indivíduo.

Postado por Camila Rocha

Veja também

24/08/16
Nós deveríamos todos ser feministas

Eu me tornei fã da escritora Chimamanda Ngozi lá em 2010, quando a assisti pela primeira vez no TED Talk, com uma fala intitulada “O Perigo de uma única história”. A fala dela é maravilhosa, e nos faz refletir sobre as imposições culturais e estereótipos que limitam e pré-definem nosso conhecimento.

No entanto, foi a segunda palestra dela, que assisti alguns anos depois, que se tornou tão importante para mim. O discurso dela: claro, direto e tão didático, me fez compreender melhor sobre a importância da luta das mulheres. Em “Nós deveríamos todos ser feministas”, a autora desmistifica o termo feminista, ainda tão carregado negativamente, também conta sobre sua infância na Nigéria permeada por valores e tradições culturais machistas.

Nesse ponto, foi uma ruptura muito importante para mim, poder compreender o quanto a cultura pode ser machista e que não devemos ter medo de modificá-la. Nas aulas sobre Cultura, durante minha especialização, era sempre uma das questões levantadas: saber até que ponto era permitido intervir em tradições culturais. Para muitos estudiosos – antropólogos, principalmente – a tradição de um povo deve ser mantida a todo o custo.

Porém, diante de atrocidades cometidas contra mulheres no mundo todo em nome de uma tradição cultural, eu sempre me perguntei: até que ponto é permitido pensar assim? E foi por causa da Chimamanda que eu nunca mais hesitei quando ouço algo do tipo: “Ah, mas é cultural, né?! É como manda a tradição.” E logo respondo com as palavras dela mesmo:

sejamos todos feministas

“A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.”

 

Vale muito a pena assistir a palestra completa. Mas, também super indico que vocês leiam o livro “Sejamos todos feministas”, que é uma adaptação do discurso dela no TEDx Euston. É um livro curtinho, mas que a gente fica com vontade de anotar e decorar cada pensamento e ideia que ela apresenta. Ah, parte dessa fala dela também foi usada na música “Flawless” da Beyoncé.

Postado por Ana Paula Nunes

Veja também

03/08/16
[Resenha] ABC de Fernando Pessoa

ABC Fernando pessoa

“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos”

Fernando Pessoa foi um escritor português que viveu entre 1888 e 1935 conhecido não só por seus poemas, mas também prosas. É  daqueles poetas que sempre ouvi falar, mas que nunca tive interesse o suficiente para parar e ler, talvez por receio mesmo, já que poesia nunca foi o meu forte.

O livro ABC de Fernando Pessoa parece ter sido feito justamente para pessoas como eu, que precisavam se iniciar na poesia de um jeito ou de outro. E posso dizer que lê-lo foi uma surpresa muito gostosa!

Antes de ter preguiça e resmungar, é bom saber que nesse livro você não vai encontrar  aqueles poemas complexos que mal dão pra entender na primeira vez. A obra não é feita de poemas e sim  citações, nele a editora Leya reuniu as melhores frases e trechos da prosa e poesia de Fernando Pessoa e as dividiu em temas por ordem alfabética.

abc de fernando pessoa

Logo na primeira página a impressão que tive foi de uma explosão mental. As citações parecem ter sido escolhidas a dedo para fazer o leitor ler e reler, mas não porque são pesadas e sim porque  cada vez que passamos o olho dá pra entender uma coisa. E o melhor, pensar em uma milhão de outras coisas partindo daquela coisa inicial.

“Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica. Contra argumentos não há factos”.

Sensacional ou não? Dá para levar esse livro pro  bar e criar debates de horas com os amigos ou ler sozinho e ter vários insights.

Outra coisa super legal do livro foi a diagramação, que possui a  letra abrindo o capítulo e as “palavras temas” destacadas em vermelho. Ou seja, você pode ler logo sobre o tema que te chama a atenção.

abc de fernando pessoa

O livro só tem um lado ruim: em alguns capítulos existem trechos quase inteiros de poemas ou,  às vezes, uma frase que eu realmente adorei, mas o livro não informa nem no final de quais obras aquela citação foi tirada. Claro que pode servir também para instigar mais ainda o leitor para ler Fernando Pessoa, pois se o poeta consegue conquistar só com uma frase, imagine em uma obra completa.

ABC de Fernando Pessoa pode se chamar “ABC” pela divisão alfabética dos temas das citações, mas pra mim é ABC no mesmo sentido de Bê a Bá, como uma introdução para os iniciantes de Fernando Pessoa. O livro é melhor maneira de apresentar o autor para alguém – ou você mesmo – ou presentear quem já conhece de cor e salteado sua obra, mas precisa daquela coletânea de melhores momentos.

Postado por Carina Silva

Veja também

15/06/16
Série Love – Netflix

série love netflix

A Netflix está arrasando com as sérias próprias. A bola da vez é a série Love, uma comédia romântica com pitadinhas leves de drama que conta a história de Mickey e Gus, dois adultos que acabaram de entrar na faixa dos 30 que se conhecem por acaso logo após  terminarem seus respectivos relacionamentos.

Mickey é apresentada como a garota descolada que trabalha em uma estação de rádio, usa drogas, bebe, fuma e é  aquela bagunça de  pessoa sem estabilidade emocional que acaba sendo vista como descolada e cool. Já Gus é o típico nerd  tímido e fã de cinema que mal bebe, é bonzinho e trabalha como professor no set de filmagens de uma série.

Ao se conhecerem, Gus imediatamente gosta de Mickey e os dois começam a trocar mensagens e a se encontrar ocasionalmente. O problema é que Mickey e sua vida constantemente agitada acaba deixando o relacionamento dos dois muito difícil de engajar.

A sacada de Love é ir além de uma história sobre o início de um relacionamento entre uma descolada e um nerd, pois desconstrói esses dois estereótipos. Gus é aquele nerd bonzinho que não é tão bonzinho assim, como ele é visto como um carente solitário, o personagem parece ter adotado essa personalidade, porém ele é tão egoísta e arrogante como a própria Mickey. Já ela, que se faz parecer forte e independente acaba se mostrando, ao longo dos episódios, mais sensível, carente e vulnerável que o próprio Gus.

série love

É divertido e interessante ver como cada um cria expectativas em cima do outro, o desespero de mandar uma mensagem e esperar a resposta, projeções e principalmente entender o outro além do que ele se deixa mostrar.

Apesar do carisma da personagem feminina, as partes mais engraçadas ficam por conta de Gus, que não é tão carismático, mas gera umas boas risadas em seus surtos no dia a dia.

Love é ideal para ver entre episódios de séries pesadas ou quando você precisa dar uma respirada e ver algo tranquilo. Nada de excepcional, mas divertida.

Postado por Carina Silva

Veja também

03/06/16
Tá todo mundo mal – Jout Jout

tatodomundomal

Ler o livro da Jout Jout é igual assisti-la em seus vídeos no Youtube, a gente se sente em uma conversa de bar onde ela conta, tranquilamente, suas neuras mais profundas e rimos porque é exatamente assim que nos sentimos.

A youtuber de apenas 25 anos acaba de lançar seu primeiro livro, “Tá Todo mundo Mal” e , como não poderia deixar de ser diferente, é sobre ela, assim como a maioria dos livros de youtubers famosos que vêm sendo lançados a quilos no mercado editorial. O diferencial, ao meu ver, é que Jout Jout optou por não escrever exatamente sua biografia – o que achei ótimo, e o mais legal: foi ela mesma quem escreveu, nada de ghots writes aqui, amiguinhos.

As crônicas de Júlia são sobre a vida simplesmente, com exceção de que ela optou por selecionar assuntos que remetam à crise. Ou seja, basicamente o que ela já fala nos seus vídeos. Isso pode ser um problema, já que se o leitor for da “família Jour Jout” (pessoas que assistem todos os vídeos religiosamente e adoram ela), assim como eu, vai ler sobre várias coisas que ela já falou, por exemplo : a crise da sua falta de queixo, a crise de quando terminou a faculdade de Jornalismo e não sabia mais o que fazer da vida, a crise de quando deixou seu namorado Caio ler seus textos pela primeira vez, etc…

O que constatei assim que li a 1ª crônica do livro, “A crise da puberdade injusta”, foi o que muitos dos fãs de Jout Jout também pensaram (e falaram em voz alta na fila da noite de autógrafos que ela deu aqui em São Paulo): não é nada demais. Sim, não é nada demais assim como qualquer livro de cronistas contemporâneos famosos, como a Martha Medeiros, que fala sobre a vida apenas. Levando em conta de que crônicas devem ser um papinho no bar sobre qualquer assunto,  “Tá Todo mundo Mal” não foge dos padrões esperados.

Jout Jout fofíssima autografando o livro e eu trêmula

Jout Jout fofíssima autografando o livro e eu trêmula

Minha amiga disse que Jout Jout fala sobre coisas que todo mundo pensa e discute, e sua escrita é normal (leve, gostosa de ler, mas nada para ser invejado). Então por que esse auê todo em cima desse livro? Bom, além de ser dela – uma youtuber famosa- Jout Jout faz em seu livro a mesma coisa que faz em seus vídeos: fala sobre essas coisas para quem quiser ouvir. Eis o diferencial. Todo mundo sente e todo mundo pensa as mesmas coisas que ela, mas Jout Jout faz e fala sobre, deixa isso aparecer para o mundo inteiro e, talvez, seja isso o que faz dela a voz de uma geração. Uma geração perdida profissionalmente, cheia de traumas infantis escondidos, frequentadora de terapia, que tem medo de críticas e tenta desesperadamente não se sentir culpada por não conseguir se adaptar a um emprego convencional.

O grande diferencial aqui é que, ao contrário de Martha Medeiros ou Tati Bernardi, Jout Jout fala para uma outra geração, uma geração mais nova que precisa mais do que tudo saber que vai ficar tudo bem e que, sim, tá mesmo todo mundo mal.

Postado por Carina Silva

Veja também