Leia Organa merecia mais!

Como qualquer filme, a saga Star Wars está repleta de pequenos e grandes problemas e o que não falta na internet são postagens e mais postagens falando sobre o assunto. Mas, nos últimos anos e principalmente depois do lançamento dos dois primeiros filmes da nova trilogia, algo que passou a me incomodar profundamente foi o tratamento dado à Princesa/General Leia Organa (e, por extensão, à atriz Carrie Fisher), apesar de amar Leia com todo o meu coração. Mesmo sendo um ícone feminista e uma das grandes personagens femininas da saga, Leia nunca foi o centro de um arco narrativo próprio na trilogia original e tampouco na recente, e é por isso que digo que ela merece ter mais destaque, ainda que Carrie Fisher tenha falecido.

Em Uma Nova Esperança, a construção de Leia é elogiada por ter sido revolucionária em 1977, o que acredito ser verdade. Ela beija Luke duas vezes e sempre fica no ar aquela tensão sexual com Han, mas fora esses momentos, seus relacionamentos são baseados principalmente em amizade, e seu principal objetivo é sempre a sobrevivência da Aliança Rebelde. Leia se torna uma representação daquilo que Luke aspira a ser: sábia, corajosa, esperta, abnegada, heróica e um símbolo de esperança. Podemos até dizer que Leia é a razão pela qual a saga começou, não fosse por ela os planos da Estrela da Morte, C3PO e R2-D2 jamais teriam chegado a Luke e Obi-Wan. No entanto, apesar de ver seu planeta destruído bem diante de seus olhos, o filme não abre espaço para ela processar seu trauma emocional. Em vez disso, a vemos confortar Luke pela a morte de Obi-Wan e pela partida de Han.

O Império Contra-Ataca é indiscutivelmente o melhor da trilogia quando se trata do tratamento dado a Leia, embora isso não seja exatamente um progresso. É nesse ponto da história que Leia se aproxima ao máximo do seu crescimento narrativo enquanto personagem, mas mesmo assim, é principalmente um arco com forte influência romântica, cuja característica central e a coisa mais importante na vida das personagens femininas, o surgimento do amor entre um homem (Han) e uma mulher (Leia).

Tudo isso nos traz ao pior dos três filmes: O Retorno de Jedi. Eu poderia escrever uma centena de postagens sobre tudo o que há de errado com o biquíni dourado, sobre como ele foi usado para silenciar Carrie e Leia, sobre como aquela minúscula peça de vestuário envenenou as relações entre Star Wars e as fãs do sexo feminino por muitos anos, tentando transformar a saga numa história para garotos apenas. Mas talvez a pior parte venha depois de Luke ter sido o foco do segundo filme e de Han ter tido seu arco em Uma Nova Esperança, pois O Retorno de Jedi deveria ter sido o filme de Leia. Ela deveria ter liderado a missão para recuperar Han das garras de Jabba, o Hutt.

Ela deveria ter sido a general encarregada do ataque ao gerador de escudo em Endor (há implicações no novo cânone de que ela já era uma general nesse ponto da história, mas isso não é mostrado no filme), e mais importante, ela deveria ter tido alguma reação mais profunda e individual quando soube que Darth Vader era seu pai, principalmente se considerarmos que, em termos de filme, ela provavelmente passou mais tempo ao lado de Vader e do Luke.

Depois da trilogia original, houve um período de reconhecimento retroativo para os feitos de Leia. O Universo Expandido (agora Selo Legends) mostrou bem isso, trabalhando ora com aspectos feministas ora com aspectos sexistas da trilogia original. A sensibilidade e de que Leia tem à Força foi mais desenvolvida, tanto que ela se torna uma Jedi completa, ao lado de seus filhos e tudo mais. No entanto, ela também foi frequentemente sequestrada e transformada em mocinha indefesa ante a vilões que iam desde os Hutts até ao filho impostor do Imperador Palpatine.

Essa era de reconhecimento retroativo também foi transferida para a era atual da Disney, com a animação Forces of Destiny, os novos livros e histórias em quadrinhos como Princesa Leia e Vader Down, que expandiram a narrativa de Leia e mostraram o crescimento pelo qual ela passou por fora das telas. Star Wars: Infinities chega ao ponto de Leia substituir/se igualar a Luke como o “Escolhido” que salva a galáxia. Eu aprecio especialmente Forces of Destiny por colocar Leia no centro da ação e também por enfatizar a devoção de Leia à diplomacia e à justiça. Rogue One, de certo modo, colocou Leia e sua nave no coração da batalha. Já eu teria colocado Leia junto à porta da Tantive V, pronta para atirar em Vader e conseguir os planos para os rebeldes, se fosse necessário. Ela também é a única do trio principal a aparecer em Star Wars: Rebels, mostrando o quanto ela trabalhava em prol da Rebelião e da galáxia mesmo ainda muito jovem.

E eis que chegamos à trilogia atual. Em O Despertar da Força, não vemos Leia sendo de fato uma general até quase o fim do filme. Mesmo assim, boa parte da personagem ainda é baseada em seus relacionamentos com homens: seja uma irmã tentando trazer seu irmão para casa, ou uma esposa tentando consertar seu relacionamento com o marido ou até mesmo uma mãe tentando salvar seu filho. Tudo isso é louvável, mas também é um bastante insatisfatório do ponto de vista feminista que a personagem tenha passado a existir em torno dos homens ao seu redor, especialmente para alguém que começou tão independente quanto a princesa de Uma Nova Esperança.

O Último Jedi nos deu um relance de Leia usando a Força, sendo uma general e um grande símbolo de esperança para a Resistência, mas também a deixou marginalizada (metafórica e fisicamente) por seu irmão mais famoso e depois a colocou em coma, entregando a responsabilidade para a Almirante Holdo. Por mais interessante que tenha sido a dinâmica entre Holdo e Poe, as coisas poderiam ter sido desafiadoras e instigantes se tivesse sido Leia a pessoa que ele estava questionando e desafiando. E mais uma vez, ela não teve espaço para lidar com o trauma de perder o marido pelas mãos de seu filho, pois estava ajudando os outros a lidar com seus problemas.

O episódio IX supostamente teria corrigido alguns desses problemas mais diretos, já tendo sido definido que o filme se centraria em Leia, assim como o episódio VII foi de Han e o VIII foi de Luke. No entanto, com a morte de Carrie Fisher, esses planos foram descartados e não se sabe exatamente como a história vai lidar com a morte da nossa princesa. Tudo que resta então são especulações e a esperança que o roteiro de J.J Abrams fará, ainda que de forma póstuma, justiça à estrela mais brilhante do panteão galáctico da saga.

Sobre a autora:
Além de escritora, Mariana Mello é blogueira e tradutora. Nascida em 1991, essa singela representante da raça dos hobbits, que atende pelo nome de Mariana, é graduada em Jornalismo e Tradução e atualmente faz mestrado em Estudos Literários na Universidade Federal de Juiz de Fora.

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Comments

  1. Responder

    “metaforicamente e fisicamente” Você só flexiona o último tá, gente? “metafórica e fisicamente”

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