09/01/17
Como surfar uma onda que não é a sua

Choro magro

Estava com dificuldades pra dar um título pra esse post, daí conversando com a Kalli outro dia, ela me disse sobre alguém que estava tentando se apropriar da vivência alheia: “Como surfar uma onda que não é a sua”.

E é basicamente isso, pessoas tentando trazer pra si holofotes se aproveitando e personalizando a vivência alheia. Se apropriar da história, da experiência, do estilo, das ideias de outras pessoas, clamando pra si através de diversos atos o que não viveu, e principalmente não sofreu.


Estamos passando por um momento atual de destaque e de empoderamento de lutas de minorias oprimidas. Os homossexuais, os negros, transsexuais, mulheres, gordos e outras minorias estão em voga. Mesmo com toda essa onda conservadora atual, essas lutas nunca tiveram tanta força.

Grandes marcas estão abrindo os olhos para essa parte da população como grande potencial de consumo, e colocando em suas campanhas mulheres fora do padrão de todas a formas. Influenciadores de nichos hora deixados à margem, agora estão tendo algum destaque.

Isso tudo chama muito a atenção e ajuda muito na autoestima dessas minorias, na representatividade delas. Mas traz também muitos aproveitadores, gente que antes era fitness, lifestyle perfeito, viagens e compras, agora é consciente, faz relatos de sua história de vida cheia de complexos, sua auto estima abalada… e tudo isso pasmem, sendo padrão e simplesmente querendo isso mesmo: SURFAR NUM CLOSE ERRADO.

E por que isso é ruim, qual o problema dessas pessoas aderirem a essas causas? O primeiro grande mal é o APAGAMENTO, das pessoas e das vivências REAIS. Além disso, aderir não é a palavra certa, já que fazendo isso esses oportunistas não apoiam causas, simplesmente se apropriam do lugar de fala e por serem já indivíduos privilegiados dentro de uma sociedade padronizada. E absurdamente, essas pessoas conseguem ter mais voz, mais atenção e credibilidade do que o grupo que realmente precisa desse lugar.

E por que agora eu resolvi abordar isso aqui? Porque isso tem crescido mais e mais, pessoas oportunistas que querem se destacar de alguma forma, a qualquer custo, não interessa como, estão cada vez mais se apropriando e ocupando destaque e oportunidades que não lhes cabem.

É homem falando de feminismo, magro se dizendo sofredor de gordofobia, até branco de cabelo cacheado se identificando como negro já vi por aí.

E isso realmente funciona, pois eles são a versão maquiada e editada da realidade. É muito mais bonitinho ouvir sobre opressão, auto estima, e luta de carinhas e corpinhos padraozinho, de pele rosada e cabelo loirinho.

E pra quem é esse recado afinal? Vale a pena apelar a consciência de seres humanos que fazem esse tipo de fraude? Claro que não, estou aqui falando para quem se sente diretamente atingido e afetado por esse apagamento.

Reajam, confrontem, digam lá no textão da branca/branco magra(o) que sofre opressão pra ela se situar, pra não vir querer surfar sua onda, pois na hora de ser subjugada e humilhada por sua aparência, cor ou orientação, ela não estava lá.

E você que tá aí fazendo essa presepada toda, montando esse circo e atuando vivendo o personagem do momento. A gente te saca, ok? Não pense que tá colando não. 😉

O mar é pra todo mundo, mas não mata os peixinhos, ok?

Helena SáPostado por Helena Sá

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4 comentários em “Como surfar uma onda que não é a sua”

  • Larissa disse:

    nossa, helena, que post necessário! vejo muito isso – e muitas vezes são pessoas bem intencionadas e que de fato passam por algumas questões, mas que precisam dimensionar as coisas. tipo, toda mulher sofre imposição de padrão de beleza, mas você não pode falar sobre ser gorda se você só está fora do padrão. ser gorda é mais que isso, né? ser gorda é estar deslocada da estrutura social que é feita pra abrigar magras e não-gordas. eu acho que falta empatia e, principalmente, diálogo, porque se você realmente quer discutir sobre um assunto, busca opiniões de pessoas que sofrem diretamente aquela opressão. eu não vejo problema em pessoas fora de uma minoria discutirem aquilo desde que seja pra agregar e não seja um tentativa de se incluir numa opressão que não sofre.

    • Helena Sá Helena Sá disse:

      Sim, ficou faltando mencionar que as vezes sim as pessoas fazem sem intenção, na verdade sem trabalhar a empatia pra perceber o que a cerca. Mas o que mais eu ataco nesse post são na verdade influenciadores, celebridades, enfim, que estão agora sacando e achando que é trend se abrir e relatar vivências, e acabam se aproveitando disso. Espero que as pessoas entendam que não é legal ser oprimido, mesmo com o destaque que possa se receber por isso, não vale a pena, e é triste ver pessoas que nunca passaram nada invejando esse tipo de situação.

  • Day disse:

    Adorei o post!
    Eu estava justamente comentando sobre isso com um colega. Depois do levante dos negros, gordos, mulheres, gays.. enfim, todos os que antigamente eram invisíveis para a sociedade (invisíveis não, na hora de discriminar e fazer chacota são bem visíveis), o que apareceu de gordo manequim 40, e negros de facebook e instagram não dá pra contar; pelo que estou percebendo uma coisa séria e importante que é a luta pelo respeito e aceitação está virando apenas marketing pra vender roupa manequim 48 e cosmético pra cabelo crespo.
    E na minha opinião funciona exatamente do jeito que você disse: “… funciona, pois eles são a versão maquiada e editada da realidade.”. A sociedade e a mídia deram espaço para a diversidade, desde que a diversidade não seja tão diferente do que já estava ai. Tem espaço pro gordo, desde que esse gordo não passe do 44, tem espaço pro negro também desde ele não coloque o dedo na ferida de ninguém, tem pro gay que não é afeminado e pra feminista que saiba medir as palavras e se pareça com as modelos de revista.
    Várias pessoas que estão ai pagando de discriminados, sofridos e injustiçados nunca souberam o que é ter sua honestidade ou sua capacidade colocada à prova por causa da cor da sua pele, ter o cabelo chamado de bombril, entrar num ônibus e ficar medindo a roleta com os olhos imaginando se dá pra passar por ela ou não. Mas mesmo assim eles vão entrar nessa, afinal, tá dando ibope não é mesmo?
    Conheci seu blog há alguns dias, e hoje revirando os posts antigos que eu descobri que somos da mesma cidade rs

    • Helena Sá Helena Sá disse:

      Ei Day, fico feliz em ver ter mais uma conterrânea por aqui, espero que você possa vir participar sempre comentando. O que você disse é muito duro de ler, pois é a mais pura verdade, mas estamos aí pra jogar a real e essa cena toda não nos convence.
      Espero que mais e mais pessoas estejam apurando o senso crítico pra perceber esse tipo de coisa e que ninguém mais se cale, só assim podemos pelo menos tentar mudar algo.

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